quinta-feira, 1 de setembro de 2011

M (água)


De tanto molhar e secar, meus olhos cansaram. Não, nunca mais chorei por nós. Não te quero bem, não te quero mal. Não te quero. E, caso me encontre, na rua, na lua ou no bar, não procure meus olhos, não se procure em mim. Não procure cicatrizes. Não ofusque minha luz. Apenas passe. Mas não passe como brisa, que me acaricia, nem passe ventania, que me leva. Passe, mas não tropece em mim. Deixe minhas mãos. Já sei por onde (não) devo ir. Não diga que me ama. Amar é grande demais para caber em você. O amor está infinitamente acima do que você pressupõe sentir. Não, não guarde minhas fotos. O sorriso emoldurado não tem mais razão de ser. Não ao seu lado. Não guarde minhas cartas. São palavras ao vento, destinadas a um ser que acreditei existir. Não guarde meu beijo, meu cheiro, meu toque. Não me busque, pois não estarei lá. A água que escorreu da veia que você vazou lavou o que sobrou de nós. De tanto te ver chegar e partir, cansei. A m(água) me levou.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

DES construção

Nosso amor quer florescer: porque o pulso ainda pulsa. Por isso, quando você borra o meu batom e diz que ainda me ama, eu também te amo. Porém, quando os fatos do passado assombram minha mente já cansada de tanto lembrar, eu finjo que te odeio. Não odeio, entretanto, gosto de pensar o contrário: porque a verdade é que quando te abraço, respiro o teu perfume. Quando sua pele me chama, eu também me entrego. Quando nossas bocas desconversam e dizem coisas banais, nosso olhar conversa profundamente. Quando você repara nos traços do meu rosto ou no contorno das minhas mãos, eu finjo que não percebo. Quando você parte, eu finjo que não dói. E porque quando te tenho, te quero ainda mais. Você existe, sim. E eu, embora tente me esquecer disso, ouço a música dizendo que é pra sempre.

E o pra sempre é sempre por um triz...

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Conversando com Deus

Paz é como caminhar sozinha aos pés do mar, sentindo a brisa no rosto, ouvindo o som das águas e respirando fundo. Paz é entrar em sintonia com a espiritualidade amiga e essa prece me conduz a Deus. Senhor, obrigada por toda a luz que sinto dentro e ao redor de mim. Agradeço por sentir tão forte sua existência e, mais que isso, sua presença em todos os momentos. Obrigada pela minha saúde física e metal e pela sensibilidade que me permite enxergar com clareza a beleza de tudo que existe. Obrigada pelo dom da arte, que enobrece a mim e ao mundo. Obrigada pela família que me acompanha nessa encarnação e pelos amigos que são um dos melhores presentes que alguém pode ter. Obrigada pelo meu trabalho e por todas as oportunidades, encontros, sorrisos e surpresas. Irradio muito amor e muita paz a quase todos, sei que cada um está em seu degrau de evolução e eu desejo compreender cada vez mais o outro. Desejo que o Senhor me oriente a respeito de algumas decisões a serem tomadas e que se desfaçam alguns nós de minha mente. Que meu coração aprenda a lidar com perdas. Sei que tudo é uma questão de tempo e na hora certa tudo acontece. Se não acontecer, é porque foi melhor assim – e passamos a compreender isso. Quanto mais a vida passa, mais me impressiono com a grandeza e sabedoria divina. Eu te amo. Obrigada, Senhor, pelo privilégio e o merecimento de estar aqui – Sei que estou destinada a coisas boas: e porque o Senhor me leva, sempre. Isso é plenitude. Sou infinitamente grata por tudo. E que assim seja.


Carol.



ARTE: VIDA

Encontre a porta secreta - onde pulsa a felicidade - as agonias se dissipam - toda loucura é lúcida ou todo o insano é normalidade ou toda normalidade é sempre um pouco louca - transcenda - sonhos não cabem em molduras, livres eles saem, livres eles voam, livres eles buscam - se liberte - destino - o inefável - encontre a porta secreta - o mais profundo de si.


segunda-feira, 16 de maio de 2011

A um passante



A saia branca que guardava a virgindade da garota de lábios doces ainda está aqui: limpa e pura.

Era uma noite chuvosa e ela beijou o canto da boca do rapaz, como sempre fazia ao se despedir. De repente, o beijo. Surpreendeu-se ao sentir sua língua dançando na boca do outro: as bocas se buscavam e as almas também. Assustou-se. Entreolharam-se. Ao deixa-lo, sentia ainda vivo o beijo em sua boca.

Era um dia de Sol. Pôr-do-sol. A brisa acariciava os cachos de seus cabelos: em cada cacho um mistério. Brisa suave, leve como as mãos do menino de carícias ternas e delicadas. Macias eram as mãos, a brisa e o beijo. O segundo beijo tinha gosto de chiclete de menta, o terceiro de manteiga de cacau e os últimos tinham o gosto dele mesmo. Ele disse: "Olhar intenso, o seu". O olhar dela respondeu, sorrindo: "Os seus também”.

Era um dia de festa: Réveillon. Não, a saia branca já não escondia virgindade alguma. Sentiu, então, que vivera sempre à espera daquele momento.

Tempo. Des/encontros. Tempo.

Era um sábado. Ele passou por mim. Um passante, meu Deus. O que fizemos de nós?

Silêncio.

É um dia normal. Certa melodia distrai a menina de beijo doce. Esboça um sorriso triste. Ainda é amor.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Dolce


Chiclete é coisa engraçada. Chiclete é coisa que acaba sem acabar: continua existindo, mas perde o gosto bom. Senti com a língua a ausência do doce. Eis que meu chiclete se desgastou e me entristeceu vê-lo assim: sem gosto, sem cor, sem reagir à minha saliva quente, minha língua vermelha, macia e flexível. Para não perdê-lo, tive de engoli-lo. O chiclete mergulhou em mim e foi parar dentro do peito. Queria tê-lo assim, pra sempre, mas precisava limpar meu coração. Vomitei-o. Responda-me, mãe, existe chiclete que nunca acaba?

Existe. Mas é raridade. O chiclete só não acaba quando é muito forte. Chiclete resistente é aquele capaz de se transformar numa bola enorme: do seu tamanho. Quando meu avô também era neto, morou nessa casa. Era o coração da minha avó.

Experimentei soprar o meu chiclete sem vida. Soprei, soprei, soprei e quando fui morar nele SPLASH! A goma estourou e se espalhou e grudou em tudo o que meu espelho refletia. Prendeu-me. Chorei.

Responda-me, mãe, existe chiclete do avesso? Sim, do avesso.

Existe. E ele se torna cada vez mais doce. Doce como o seu coração.

Sim, mamãe, eu o amava.

I - mundo


coisas e cacos e quadros
pintados: meus lábios
impressos
recortes de uma vida inteira:
mentira
perfumes mortos nos panos que nos cantos repousam
coisas mergulhadas no silêncio empoeirado

abandono

sobras e sombras me
assombram
como o grito que sufoquei
como
grito
e passo a conviver sem
viver

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O anel que tu me deste.



Cuidado! Está vivo, ainda. Não, não o toque. Observe, apenas. Observe, em silêncio, a verdade desse objeto tão nosso e, ao mesmo tempo, tão deserto de nós.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Angústia


Repare em você na foto. Sim, você. E aqueles olhos, cadê? Penso em seus olhos e misturo acontecimentos, lembranças, sentimentos, vontades. Tudo se confunde, tudo me confunde. Já não grito: silencio. Fecho meus olhos. Fecho os seus olhos. NÃO! Não durma, por favor. Eu te amo. Muito. Mas é que tudo está tão dentro e tão fora de mim. Reviro na cama, reviro em mim mesma, reviro-te para procurar esses olhos que amei. Onde estão, afinal? Meu lençol está molhado, serão lágrimas ou suor? NÃO! Não mais. Eu até queria acreditar nesse sorriso que amei, nessas mãos que beijei, nesses sonhos que nutri, nesse olhar que tento reconhecer. Repare bem dentro do seu coração. Sim, aquele no qual eu morava. E aquele amor, cadê?

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Fly away from here


Não, isso não é uma lágrima. Não é água, sal e só. O que minha alma derrama não se nomeia. Nem tem por quê. O que minha alma derrama sequer existe fora de nós. Essa substância tão minha concentra o peso dos oceanos todos. Você não entenderia. Não, não é de sal. Nem é doce. Não tem gosto. Não tem cor. Na verdade, essa substância é imaginária. Não, não existe. Nem dentro de nós. Não existe dentro de nós, e porque eu não existo. Não mais existo para você. Talvez em você, mas não para você. Sendo assim, esqueça tudo o que escrevi antes. Só quero desfazer sua impressão de que isso é uma lágrima. Eu juro que não é. E se for mesmo, não é minha. Estou dizendo, minha não é. E se for minha, você confundiu meu rosto. Essa não sou eu. Eu não estou aqui. E se estivesse, eu não teria rosto. Não para você. Eu sou a substância imaginária que você criou. Mas como, se eu te criei primeiro? Você sabe que não existe. Talvez para mim, mas não em mim. Acho que cometemos um grande erro. Você pensou que eu não existia e que minha luz era imaginária, quando na verdade eu acreditava na sua verdade, na sua luz. Eu te iluminava. Sim, eu existo. Minha luz é real. Eu só estava tentando disfarçar a lágrima. E porque nela, tem a dor da sua inexistência. Você era o ser imaginário. Você desapareceu e deu lugar a um ser tão real quanto sem luz. Mas esqueça isso. Esqueça até esse texto. Na verdade, não fui eu quem o escrevi. Acho que você está imaginando coisas. Como escreveria, se eu não te conheço? Preciso ir. Não, não posso levar-te. Talvez como uma brisa suave, que acaricia-me o rosto e me lembra, vez ou outra, do amor que inventei.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Anjo de Luz ou A luz de todos os Anjos?


E quando eu estava distante de tudo, distante até de mim mesma, ele me encontrou. Eu dormia no escuro, de janelas trancadas, e o Sol já não me tocava. Ele abriu a janela. Ele se mostrou Sol, mas eu ainda dormia. Ele beijou meus olhos para que se abrissem novamente. Eu despertei. Ele beijou meus lábios para que se abrissem novamente. Eu respirei. Ele cicatrizou o que doía. Ele enxugou o que minha alma chorava.  Ele enxugou o que meu peito sangrava. Ele me abraçou e aqueceu o coração que tentaram destruir. Ele tinha tanta luz que ofuscou as negatividades que entristeciam meu caminho. Ele era luz. Ele me ajudou a reencontrar o sorriso que dos meus lábios roubaram. Ele segurou minhas mãos e me puxou de volta à superfície. Ele me fortaleceu. A gente conversa com os olhos, a gente enxerga com o coração, a gente ama com a alma. A gente vive em paz. É um presente ao mundo a existência de pessoas lindas de verdade, cujo valor é infinito, pessoas maravilhosas e que eu tenho o merecimento e a alegria de encontrar pelo caminho. Deus SEMPRE me mostra o caminho. Deus me manda seus anjos!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Dist(ânsia)

A prateleira mais alta da minha estante de alma guardava o melhor instante, de alma, de corpo, de vida. Eu guardava o seu melhor sorriso, banhado de um sol que nascia desses olhos e um cristal que puseste em minhas mãos. Cristal, tão falsamente meu. Cristal, tão falsamente precioso. E dele aproximei tantas cores, minhas cores, cores que ele absorvia e não, não me devolvia. E muito Sol e calor e amor eram direcionados a ele, que sugava-as, que sugava-me. A beleza do cristal existia porque eu amava tê-lo pra mim e em mim e porque a prateleira era alta demais e minhas mãos não conseguiam tocá-lo. Eu não conseguia. A janela estava aberta e eu tinha medo de ventos fortes e tempestades. Eu ficava com as mãos em concha para caso o cristal despencasse. Eu o pretegia. Tentei fechar a janela, mas o cristal gostava de observar além-nós. Mas era preciso tomar cuidado com ventanias e tempestades. Eu não dormia, eu nunca dormi. Eu sempre estive presente, para quando o cristal precisasse, para protegê-lo. Mas eu também precisava dele, também queria ver em mim as cores do arco-íris refletidas, também queria ser protegida das tempestades, das ventanias de alma, de corpo, de vida. Eu também precisava de Sol, calor, amor. Eu precisava. Mas enquanto isso, vivia para o tão falsamente meu cristal. Um dia, de repente, descobri toda a verdade sobre o misterioso e acomodado e egoísta cristal. Reparei melhor e enxerguei o que havia além-nós, o que havia além da janela que ele, o cristal, nunca me permitiu fechar. Eu descobri que ele direcionava todas as luzes, calor e amor a um outro objeto vidrado, trincado, comum. Eu descobri. E, neste momento, o cristal se partiu diante dos meus olhos e uma ventania fez com que caissem todos os cacos nas minhas mãos. Eles me machucaram. E foi com o meu próprio sangue que decidi colar cada um dos pedaços e reconstruir o cristal que era falso, eu sabia, mas que eu ainda amava.  E, ao colar as partes, percebi o quão deformado ficara aquela p-e-d-r-a de vidro, que nem absorvia mais as minhas luzes, minhas cores. Eu percebi, então, que ele nunca voltaria a ser o mesmo e que talvez ele nunca tivesse sido bonito, na alma, no corpo, na vida. Eu nunca voltaria a enxergá-lo como antes e nem um pouco de amor que ainda restava me faria voltar a ver com beleza o objeto deformado. A pedra, o encanto e a confiança se quebraram. Eu descobri que não, a pedra nunca mereceu nem reconheceu ou retribuiu os meus cuidados, minhas renúncias. Até que a pedra decidiu unir-se definitivamente àquele objeto vidrado, trincado, comum. Eles se identificaram. A minha estante ficou vazia, mas eu me tornava cada vez mais forte, um vez que todo o meu Sol, calor e amor eram direcionados a mim mesma e às pessoas que realmente me amam e me cuidam. Eu ganhei um presente. Desembrulhei com cuidado porque tinha receio de que fosse algo que se quebrasse. Era um cristal. Mas, desta vez, ele me iluminava com tantas cores e era tão forte que eu já não temia as tempestades, as ventanias. Eu podia até dormir. E hoje, quando me lembro da pedra de vidro e daquele outro objeto vidrado, trincado e comum, a sensação que me vem é de ânsia, muita ânsia. Um dia reencontrei a pedra no caminho. Reparei no quão pequena ela era, pequena de alma, de corpo, de vida. Reparei que ela não tinha mais cores, e porque não tinha o meu amor. Ela não encontrou o mesmo amor no ser vidrado, trincado e comum. E nem encontrará. Por isso, seus olhos estavam secos. O sorriso, amarelo. Fui embora. Estar longe da pedra me fez ver o quanto é bom respirar. Estou nadando de volta à superfície, depois de quase me afogar. Descobri que "há mares que te seduzem só mesmo pra te afogar". Eu sei nadar, eu descobri. Ah, tantas coisas eu descobri. E o Rio de Janeiro é realmente lindo!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Por você.

Eu vou daqui a Salvador, subo a pé o Redentor, faço de ti meu Rio de Janeiro, meu mundo inteiro, o meu amor. E eu quero mesmo é ter você, te viajar, percorrer, explorar, eu quero mesmo é te comer, sem culpa,  feito Pão de Açúcar. E para o meu delírio, eis que você existe. Para o meu deleite, aqui te tenho, e venho, sempre, respirar teus ares e ver teu mar, teu mar, e te amar, e o que essas ondas me trazem, e o que de mim levam, as ondas, o mar, as ondas que me acariciam, o corpo, os olhos, a alma. E o céu estava em festa quando o relógio bateu meia-noite, e aquele colorido se espalhou na imensidão, se espelhou no mar, se espalhou e se espelhou em mim, e em nós, você que estava longe, mas perto em energia. E aquelas águas me lavaram de tudo o que não mais servia, e ofereci a mais linda rosa à Iemanjá. A rosa tinha a minha cor, perfume e desejo, ela se misturou às águas de Copacabana e abraçou as ondas, para que pudesse ser levada a tudo aquilo que é profundo. Amanheceu em Ipanema. Em Copacabana também, e em todo o Rio de Janeiro, mas foi em Ipanema que vi e vivi o primeiro Sol de Janeiro, no Rio de Janeiro. Pintaram o céu de azul claro, pra combinar com o mar. E uma mancha cada vez mais clara, essa que chamamos Sol, ia crescendo em algum lugar desse todo azul. O céu se desenhava, eu me desenhava na areia. O Cristo já estava de braços abertos sobre a Guanabara. Era possível sentí-lo em sua infinita bondade, beleza, mistério. Era preciso chegar mais perto. Ele convidava-nos para um abraço confortador. Ele me abraçava. E, quando entrei em sua casa, ele ainda estava de costas, colocando uma melodia suave para embalar nosso encontro. Até que ficamos frente a frente um com o outro. Sua grandeza mostrou-me o quanto somos pequenos, ao mesmo tempo me fez grande também. Sua luz ofuscava tudo ao redor e, ao mesmo tempo, iluminava-nos. Seu mistério me encantou, enfim. E mesmo perto, não pude decifrá-lo. Mas pude amá-lo e sentir que, com ele, eu estava em paz.