Chiclete é coisa engraçada. Chiclete é coisa que acaba sem acabar: continua existindo, mas perde o gosto bom. Senti com a língua a ausência do doce. Eis que meu chiclete se desgastou e me entristeceu vê-lo assim: sem gosto, sem cor, sem reagir à minha saliva quente, minha língua vermelha, macia e flexível. Para não perdê-lo, tive de engoli-lo. O chiclete mergulhou em mim e foi parar dentro do peito. Queria tê-lo assim, pra sempre, mas precisava limpar meu coração. Vomitei-o. Responda-me, mãe, existe chiclete que nunca acaba?
Existe. Mas é raridade. O chiclete só não acaba quando é muito forte. Chiclete resistente é aquele capaz de se transformar numa bola enorme: do seu tamanho. Quando meu avô também era neto, morou nessa casa. Era o coração da minha avó.
Experimentei soprar o meu chiclete sem vida. Soprei, soprei, soprei e quando fui morar nele SPLASH! A goma estourou e se espalhou e grudou em tudo o que meu espelho refletia. Prendeu-me. Chorei.
Responda-me, mãe, existe chiclete do avesso? Sim, do avesso.
Sim, mamãe, eu o amava.


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