segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Retratos e Rabiscos

      Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo,  e  esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
[Fernando Pessoa]



"Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia..." Pois é. Por isso essa letra me incomoda tanto: porque essa verdade me incomoda. A verdade de que "tudo passa, tudo sempre passará..." Gostaria eu que só as coisas ruins passassem. Aliás, queria ter um controle mágico que me transportasse, vez ou outra, àqueles momentos dos quais sinto tanta falta. Momentos que estão lá: dispersos num passado cada vez mais distante. Acontece que tenho saudade de tudo e a todo instante. Saudade do que aconteceu ontem e até do que eu ainda nem vivi. Isso porque tanto quanto saudosista, sou ansiosa. Anseio novas etapas, fases, experiências, vínculos, encontros, situações. Entretanto, amo demais minha atual fase e as pessoas com as quais convivo atualmente, entre outros. Gosto de extremidades: sinto falta daquela criança de joelhos ralados que comia dúzias de Kinder Ovo e dançava a Macarena, mas anseio a mulher de 30 anos com a qual o(s) filho(s) se parecerá (ão) tanto, será?! Anseio meu curso superior de Arte Dramática, mas sinto uma super falta do meu primeiro ano de Letras. Também gosto daqueles lugares que guardam um pouco de mim e/ou de alguém que amo: a casa na qual passei minha infância, a escola na qual passei minha infância, o palco onde apresentei o primeiro "exercício teatral" dirigido profissionalmente. Acredito que todos os momentos  ficam impressos dentro de nós e nos lugares onde foram vivenciados. Eu sinto essa energia. Também amo "recordações tangíveis": qualquer objeto que guarde valor sentimental. E tudo me traz recordações: músicas, perfumes... Gosto disso. Gosto do tempo: esse "senhor tão bonito quanto a cara do meu filho". Me emociono com lembranças do passado e anseio o tão surpreendente futuro. Mas, principalmente, vivo intensamente o presente: sim, sempre em busca da plenitude. E descubro, de repente, que a criança de joelhos ralados e até a mulher de 30 anos também são parte desse agora: e porque são parte de mim.

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