quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Não me deixe ir embora



Meus lábios o tocam, ele não me beija. Minhas mãos o tocam, ele não corresponde. Meu corpo o toca, o dele não reage. Meu olhar o penetra, mas ele não. Minhas lágrimas o tocam, ele não se comove. Minha voz esperneia, ele silencia. Minha saudade dói, ele não se importa. Minha alma o chama, ele estagna. Meu desespero é maior que tudo, ele ignora. Eu vou embora, ele fecha a porta. Meu carro está em alta velocidade, ele já está dormindo. O acidente é grave, ele sonha comigo. O resgate chega, ele vira de posição na cama. O médico me pede um número de telefone, eu digo o dele. O médico telefona, ele acorda. Dizem para ele ir ao hospital, ele não consegue responder. Eu insisto para deixarem-me vê-lo, os médicos se sensibilizam. Ele chega correndo, eu o espero com aquela felicidade que só sinto quando o vejo. Ele beija minha testa e suas lágrimas escorrem até meus lábios. Um choro desesperado, uma vontade de acordar daquele pesadelo. Eu digo que o amo mais que tudo, ele se ajoelha e apóia a cabeça em minhas mãos, beijando-as entre lágrimas. Ele diz que me ama com toda a verdade de seu ser, eu durmo. Ele beija meus lábios, toca as minhas mãos, tenta encontrar meus olhos. Enquanto isso, meu coração desacelera, minha respiração finda e meus olhos se fecham para sempre. Eu dormi, dormi profundamente, meu amor. Dormi para nunca mais acordar, mas eu te amo pra sempre. Mais que tudo.


sexta-feira, 27 de abril de 2012

A MENINA VELHA





Palavras enrugadas
Es
correm
no amarelo do papel
esquecido
numa gaveta
                             qualquer.

Palavras de um outono tão

                             distante

ainda ecoam na mente cansada
de tanto
(ator)
mentar
-se.

O tempo passou
e
as palavras envelheceram dentro do envelope lacrado com  a saliva daquele que a
amou.

“Te amo com todo o sangue que pulsa dentro de mim. Te amo com todo o vermelho que sangra dentro e fora de mim.”

Palavras desbotadas e desafinadas e derramadas no corpo do papel
escorrem dos olhos da menina que as reencontrou.

Mãos enrugadas escondem o rosto cansado
de tanto
sorrir, enquanto as palavras, o sangue e a saudade escorriam do lado de dentro.

Chegou o outono. O espelho reflete o rosto enrugado. Ainda é amor.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

M (água)


De tanto molhar e secar, meus olhos cansaram. Não, nunca mais chorei por nós. Não te quero bem, não te quero mal. Não te quero. E, caso me encontre, na rua, na lua ou no bar, não procure meus olhos, não se procure em mim. Não procure cicatrizes. Não ofusque minha luz. Apenas passe. Mas não passe como brisa, que me acaricia, nem passe ventania, que me leva. Passe, mas não tropece em mim. Deixe minhas mãos. Já sei por onde (não) devo ir. Não diga que me ama. Amar é grande demais para caber em você. O amor está infinitamente acima do que você pressupõe sentir. Não, não guarde minhas fotos. O sorriso emoldurado não tem mais razão de ser. Não ao seu lado. Não guarde minhas cartas. São palavras ao vento, destinadas a um ser que acreditei existir. Não guarde meu beijo, meu cheiro, meu toque. Não me busque, pois não estarei lá. A água que escorreu da veia que você vazou lavou o que sobrou de nós. De tanto te ver chegar e partir, cansei. A m(água) me levou.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

DES construção

Nosso amor quer florescer: porque o pulso ainda pulsa. Por isso, quando você borra o meu batom e diz que ainda me ama, eu também te amo. Porém, quando os fatos do passado assombram minha mente já cansada de tanto lembrar, eu finjo que te odeio. Não odeio, entretanto, gosto de pensar o contrário: porque a verdade é que quando te abraço, respiro o teu perfume. Quando sua pele me chama, eu também me entrego. Quando nossas bocas desconversam e dizem coisas banais, nosso olhar conversa profundamente. Quando você repara nos traços do meu rosto ou no contorno das minhas mãos, eu finjo que não percebo. Quando você parte, eu finjo que não dói. E porque quando te tenho, te quero ainda mais. Você existe, sim. E eu, embora tente me esquecer disso, ouço a música dizendo que é pra sempre.

E o pra sempre é sempre por um triz...

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Conversando com Deus

Paz é como caminhar sozinha aos pés do mar, sentindo a brisa no rosto, ouvindo o som das águas e respirando fundo. Paz é entrar em sintonia com a espiritualidade amiga e essa prece me conduz a Deus. Senhor, obrigada por toda a luz que sinto dentro e ao redor de mim. Agradeço por sentir tão forte sua existência e, mais que isso, sua presença em todos os momentos. Obrigada pela minha saúde física e metal e pela sensibilidade que me permite enxergar com clareza a beleza de tudo que existe. Obrigada pelo dom da arte, que enobrece a mim e ao mundo. Obrigada pela família que me acompanha nessa encarnação e pelos amigos que são um dos melhores presentes que alguém pode ter. Obrigada pelo meu trabalho e por todas as oportunidades, encontros, sorrisos e surpresas. Irradio muito amor e muita paz a quase todos, sei que cada um está em seu degrau de evolução e eu desejo compreender cada vez mais o outro. Desejo que o Senhor me oriente a respeito de algumas decisões a serem tomadas e que se desfaçam alguns nós de minha mente. Que meu coração aprenda a lidar com perdas. Sei que tudo é uma questão de tempo e na hora certa tudo acontece. Se não acontecer, é porque foi melhor assim – e passamos a compreender isso. Quanto mais a vida passa, mais me impressiono com a grandeza e sabedoria divina. Eu te amo. Obrigada, Senhor, pelo privilégio e o merecimento de estar aqui – Sei que estou destinada a coisas boas: e porque o Senhor me leva, sempre. Isso é plenitude. Sou infinitamente grata por tudo. E que assim seja.


Carol.



ARTE: VIDA

Encontre a porta secreta - onde pulsa a felicidade - as agonias se dissipam - toda loucura é lúcida ou todo o insano é normalidade ou toda normalidade é sempre um pouco louca - transcenda - sonhos não cabem em molduras, livres eles saem, livres eles voam, livres eles buscam - se liberte - destino - o inefável - encontre a porta secreta - o mais profundo de si.


segunda-feira, 16 de maio de 2011

A um passante



A saia branca que guardava a virgindade da garota de lábios doces ainda está aqui: limpa e pura.

Era uma noite chuvosa e ela beijou o canto da boca do rapaz, como sempre fazia ao se despedir. De repente, o beijo. Surpreendeu-se ao sentir sua língua dançando na boca do outro: as bocas se buscavam e as almas também. Assustou-se. Entreolharam-se. Ao deixa-lo, sentia ainda vivo o beijo em sua boca.

Era um dia de Sol. Pôr-do-sol. A brisa acariciava os cachos de seus cabelos: em cada cacho um mistério. Brisa suave, leve como as mãos do menino de carícias ternas e delicadas. Macias eram as mãos, a brisa e o beijo. O segundo beijo tinha gosto de chiclete de menta, o terceiro de manteiga de cacau e os últimos tinham o gosto dele mesmo. Ele disse: "Olhar intenso, o seu". O olhar dela respondeu, sorrindo: "Os seus também”.

Era um dia de festa: Réveillon. Não, a saia branca já não escondia virgindade alguma. Sentiu, então, que vivera sempre à espera daquele momento.

Tempo. Des/encontros. Tempo.

Era um sábado. Ele passou por mim. Um passante, meu Deus. O que fizemos de nós?

Silêncio.

É um dia normal. Certa melodia distrai a menina de beijo doce. Esboça um sorriso triste. Ainda é amor.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Dolce


Chiclete é coisa engraçada. Chiclete é coisa que acaba sem acabar: continua existindo, mas perde o gosto bom. Senti com a língua a ausência do doce. Eis que meu chiclete se desgastou e me entristeceu vê-lo assim: sem gosto, sem cor, sem reagir à minha saliva quente, minha língua vermelha, macia e flexível. Para não perdê-lo, tive de engoli-lo. O chiclete mergulhou em mim e foi parar dentro do peito. Queria tê-lo assim, pra sempre, mas precisava limpar meu coração. Vomitei-o. Responda-me, mãe, existe chiclete que nunca acaba?

Existe. Mas é raridade. O chiclete só não acaba quando é muito forte. Chiclete resistente é aquele capaz de se transformar numa bola enorme: do seu tamanho. Quando meu avô também era neto, morou nessa casa. Era o coração da minha avó.

Experimentei soprar o meu chiclete sem vida. Soprei, soprei, soprei e quando fui morar nele SPLASH! A goma estourou e se espalhou e grudou em tudo o que meu espelho refletia. Prendeu-me. Chorei.

Responda-me, mãe, existe chiclete do avesso? Sim, do avesso.

Existe. E ele se torna cada vez mais doce. Doce como o seu coração.

Sim, mamãe, eu o amava.

I - mundo


coisas e cacos e quadros
pintados: meus lábios
impressos
recortes de uma vida inteira:
mentira
perfumes mortos nos panos que nos cantos repousam
coisas mergulhadas no silêncio empoeirado

abandono

sobras e sombras me
assombram
como o grito que sufoquei
como
grito
e passo a conviver sem
viver

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O anel que tu me deste.



Cuidado! Está vivo, ainda. Não, não o toque. Observe, apenas. Observe, em silêncio, a verdade desse objeto tão nosso e, ao mesmo tempo, tão deserto de nós.