segunda-feira, 16 de maio de 2011

A um passante



A saia branca que guardava a virgindade da garota de lábios doces ainda está aqui: limpa e pura.

Era uma noite chuvosa e ela beijou o canto da boca do rapaz, como sempre fazia ao se despedir. De repente, o beijo. Surpreendeu-se ao sentir sua língua dançando na boca do outro: as bocas se buscavam e as almas também. Assustou-se. Entreolharam-se. Ao deixa-lo, sentia ainda vivo o beijo em sua boca.

Era um dia de Sol. Pôr-do-sol. A brisa acariciava os cachos de seus cabelos: em cada cacho um mistério. Brisa suave, leve como as mãos do menino de carícias ternas e delicadas. Macias eram as mãos, a brisa e o beijo. O segundo beijo tinha gosto de chiclete de menta, o terceiro de manteiga de cacau e os últimos tinham o gosto dele mesmo. Ele disse: "Olhar intenso, o seu". O olhar dela respondeu, sorrindo: "Os seus também”.

Era um dia de festa: Réveillon. Não, a saia branca já não escondia virgindade alguma. Sentiu, então, que vivera sempre à espera daquele momento.

Tempo. Des/encontros. Tempo.

Era um sábado. Ele passou por mim. Um passante, meu Deus. O que fizemos de nós?

Silêncio.

É um dia normal. Certa melodia distrai a menina de beijo doce. Esboça um sorriso triste. Ainda é amor.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Dolce


Chiclete é coisa engraçada. Chiclete é coisa que acaba sem acabar: continua existindo, mas perde o gosto bom. Senti com a língua a ausência do doce. Eis que meu chiclete se desgastou e me entristeceu vê-lo assim: sem gosto, sem cor, sem reagir à minha saliva quente, minha língua vermelha, macia e flexível. Para não perdê-lo, tive de engoli-lo. O chiclete mergulhou em mim e foi parar dentro do peito. Queria tê-lo assim, pra sempre, mas precisava limpar meu coração. Vomitei-o. Responda-me, mãe, existe chiclete que nunca acaba?

Existe. Mas é raridade. O chiclete só não acaba quando é muito forte. Chiclete resistente é aquele capaz de se transformar numa bola enorme: do seu tamanho. Quando meu avô também era neto, morou nessa casa. Era o coração da minha avó.

Experimentei soprar o meu chiclete sem vida. Soprei, soprei, soprei e quando fui morar nele SPLASH! A goma estourou e se espalhou e grudou em tudo o que meu espelho refletia. Prendeu-me. Chorei.

Responda-me, mãe, existe chiclete do avesso? Sim, do avesso.

Existe. E ele se torna cada vez mais doce. Doce como o seu coração.

Sim, mamãe, eu o amava.

I - mundo


coisas e cacos e quadros
pintados: meus lábios
impressos
recortes de uma vida inteira:
mentira
perfumes mortos nos panos que nos cantos repousam
coisas mergulhadas no silêncio empoeirado

abandono

sobras e sombras me
assombram
como o grito que sufoquei
como
grito
e passo a conviver sem
viver