A prateleira mais alta da minha estante de alma guardava o melhor instante, de alma, de corpo, de vida. Eu guardava o seu melhor sorriso, banhado de um sol que nascia desses olhos e um cristal que puseste em minhas mãos. Cristal, tão falsamente meu. Cristal, tão falsamente precioso. E dele aproximei tantas cores, minhas cores, cores que ele absorvia e não, não me devolvia. E muito Sol e calor e amor eram direcionados a ele, que sugava-as, que sugava-me. A beleza do cristal existia porque eu amava tê-lo pra mim e em mim e porque a prateleira era alta demais e minhas mãos não conseguiam tocá-lo. Eu não conseguia. A janela estava aberta e eu tinha medo de ventos fortes e tempestades. Eu ficava com as mãos em concha para caso o cristal despencasse. Eu o pretegia. Tentei fechar a janela, mas o cristal gostava de observar além-nós. Mas era preciso tomar cuidado com ventanias e tempestades. Eu não dormia, eu nunca dormi. Eu sempre estive presente, para quando o cristal precisasse, para protegê-lo. Mas eu também precisava dele, também queria ver em mim as cores do arco-íris refletidas, também queria ser protegida das tempestades, das ventanias de alma, de corpo, de vida. Eu também precisava de Sol, calor, amor. Eu precisava. Mas enquanto isso, vivia para o tão falsamente meu cristal. Um dia, de repente, descobri toda a verdade sobre o misterioso e acomodado e egoísta cristal. Reparei melhor e enxerguei o que havia além-nós, o que havia além da janela que ele, o cristal, nunca me permitiu fechar. Eu descobri que ele direcionava todas as luzes, calor e amor a um outro objeto vidrado, trincado, comum. Eu descobri. E, neste momento, o cristal se partiu diante dos meus olhos e uma ventania fez com que caissem todos os cacos nas minhas mãos. Eles me machucaram. E foi com o meu próprio sangue que decidi colar cada um dos pedaços e reconstruir o cristal que era falso, eu sabia, mas que eu ainda amava. E, ao colar as partes, percebi o quão deformado ficara aquela p-e-d-r-a de vidro, que nem absorvia mais as minhas luzes, minhas cores. Eu percebi, então, que ele nunca voltaria a ser o mesmo e que talvez ele nunca tivesse sido bonito, na alma, no corpo, na vida. Eu nunca voltaria a enxergá-lo como antes e nem um pouco de amor que ainda restava me faria voltar a ver com beleza o objeto deformado. A pedra, o encanto e a confiança se quebraram. Eu descobri que não, a pedra nunca mereceu nem reconheceu ou retribuiu os meus cuidados, minhas renúncias. Até que a pedra decidiu unir-se definitivamente àquele objeto vidrado, trincado, comum. Eles se identificaram. A minha estante ficou vazia, mas eu me tornava cada vez mais forte, um vez que todo o meu Sol, calor e amor eram direcionados a mim mesma e às pessoas que realmente me amam e me cuidam. Eu ganhei um presente. Desembrulhei com cuidado porque tinha receio de que fosse algo que se quebrasse. Era um cristal. Mas, desta vez, ele me iluminava com tantas cores e era tão forte que eu já não temia as tempestades, as ventanias. Eu podia até dormir. E hoje, quando me lembro da pedra de vidro e daquele outro objeto vidrado, trincado e comum, a sensação que me vem é de ânsia, muita ânsia. Um dia reencontrei a pedra no caminho. Reparei no quão pequena ela era, pequena de alma, de corpo, de vida. Reparei que ela não tinha mais cores, e porque não tinha o meu amor. Ela não encontrou o mesmo amor no ser vidrado, trincado e comum. E nem encontrará. Por isso, seus olhos estavam secos. O sorriso, amarelo. Fui embora. Estar longe da pedra me fez ver o quanto é bom respirar. Estou nadando de volta à superfície, depois de quase me afogar. Descobri que "há mares que te seduzem só mesmo pra te afogar". Eu sei nadar, eu descobri. Ah, tantas coisas eu descobri. E o Rio de Janeiro é realmente lindo!terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Dist(ânsia)
A prateleira mais alta da minha estante de alma guardava o melhor instante, de alma, de corpo, de vida. Eu guardava o seu melhor sorriso, banhado de um sol que nascia desses olhos e um cristal que puseste em minhas mãos. Cristal, tão falsamente meu. Cristal, tão falsamente precioso. E dele aproximei tantas cores, minhas cores, cores que ele absorvia e não, não me devolvia. E muito Sol e calor e amor eram direcionados a ele, que sugava-as, que sugava-me. A beleza do cristal existia porque eu amava tê-lo pra mim e em mim e porque a prateleira era alta demais e minhas mãos não conseguiam tocá-lo. Eu não conseguia. A janela estava aberta e eu tinha medo de ventos fortes e tempestades. Eu ficava com as mãos em concha para caso o cristal despencasse. Eu o pretegia. Tentei fechar a janela, mas o cristal gostava de observar além-nós. Mas era preciso tomar cuidado com ventanias e tempestades. Eu não dormia, eu nunca dormi. Eu sempre estive presente, para quando o cristal precisasse, para protegê-lo. Mas eu também precisava dele, também queria ver em mim as cores do arco-íris refletidas, também queria ser protegida das tempestades, das ventanias de alma, de corpo, de vida. Eu também precisava de Sol, calor, amor. Eu precisava. Mas enquanto isso, vivia para o tão falsamente meu cristal. Um dia, de repente, descobri toda a verdade sobre o misterioso e acomodado e egoísta cristal. Reparei melhor e enxerguei o que havia além-nós, o que havia além da janela que ele, o cristal, nunca me permitiu fechar. Eu descobri que ele direcionava todas as luzes, calor e amor a um outro objeto vidrado, trincado, comum. Eu descobri. E, neste momento, o cristal se partiu diante dos meus olhos e uma ventania fez com que caissem todos os cacos nas minhas mãos. Eles me machucaram. E foi com o meu próprio sangue que decidi colar cada um dos pedaços e reconstruir o cristal que era falso, eu sabia, mas que eu ainda amava. E, ao colar as partes, percebi o quão deformado ficara aquela p-e-d-r-a de vidro, que nem absorvia mais as minhas luzes, minhas cores. Eu percebi, então, que ele nunca voltaria a ser o mesmo e que talvez ele nunca tivesse sido bonito, na alma, no corpo, na vida. Eu nunca voltaria a enxergá-lo como antes e nem um pouco de amor que ainda restava me faria voltar a ver com beleza o objeto deformado. A pedra, o encanto e a confiança se quebraram. Eu descobri que não, a pedra nunca mereceu nem reconheceu ou retribuiu os meus cuidados, minhas renúncias. Até que a pedra decidiu unir-se definitivamente àquele objeto vidrado, trincado, comum. Eles se identificaram. A minha estante ficou vazia, mas eu me tornava cada vez mais forte, um vez que todo o meu Sol, calor e amor eram direcionados a mim mesma e às pessoas que realmente me amam e me cuidam. Eu ganhei um presente. Desembrulhei com cuidado porque tinha receio de que fosse algo que se quebrasse. Era um cristal. Mas, desta vez, ele me iluminava com tantas cores e era tão forte que eu já não temia as tempestades, as ventanias. Eu podia até dormir. E hoje, quando me lembro da pedra de vidro e daquele outro objeto vidrado, trincado e comum, a sensação que me vem é de ânsia, muita ânsia. Um dia reencontrei a pedra no caminho. Reparei no quão pequena ela era, pequena de alma, de corpo, de vida. Reparei que ela não tinha mais cores, e porque não tinha o meu amor. Ela não encontrou o mesmo amor no ser vidrado, trincado e comum. E nem encontrará. Por isso, seus olhos estavam secos. O sorriso, amarelo. Fui embora. Estar longe da pedra me fez ver o quanto é bom respirar. Estou nadando de volta à superfície, depois de quase me afogar. Descobri que "há mares que te seduzem só mesmo pra te afogar". Eu sei nadar, eu descobri. Ah, tantas coisas eu descobri. E o Rio de Janeiro é realmente lindo!
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2 comentários:
Nossa Carolina, muito bom mesmo esse texto seu. Gostei demais! Obrigado por estar sempre presente. Entendo bem esses momentos que nos distanciamos de tudo, pra aprendermos mais sobre nós mesmas! sejaa bem vinda, sentii sua ausencia!
e sucesso sempre!
Super Obrigada por estar sempre perto, senti falta dessa sintonia, não mais me distanciarei. Temos muito o que escrever ainda hehehe
Beijos!
Sucesso pra gente. Sempre!
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