terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Dist(ânsia)

A prateleira mais alta da minha estante de alma guardava o melhor instante, de alma, de corpo, de vida. Eu guardava o seu melhor sorriso, banhado de um sol que nascia desses olhos e um cristal que puseste em minhas mãos. Cristal, tão falsamente meu. Cristal, tão falsamente precioso. E dele aproximei tantas cores, minhas cores, cores que ele absorvia e não, não me devolvia. E muito Sol e calor e amor eram direcionados a ele, que sugava-as, que sugava-me. A beleza do cristal existia porque eu amava tê-lo pra mim e em mim e porque a prateleira era alta demais e minhas mãos não conseguiam tocá-lo. Eu não conseguia. A janela estava aberta e eu tinha medo de ventos fortes e tempestades. Eu ficava com as mãos em concha para caso o cristal despencasse. Eu o pretegia. Tentei fechar a janela, mas o cristal gostava de observar além-nós. Mas era preciso tomar cuidado com ventanias e tempestades. Eu não dormia, eu nunca dormi. Eu sempre estive presente, para quando o cristal precisasse, para protegê-lo. Mas eu também precisava dele, também queria ver em mim as cores do arco-íris refletidas, também queria ser protegida das tempestades, das ventanias de alma, de corpo, de vida. Eu também precisava de Sol, calor, amor. Eu precisava. Mas enquanto isso, vivia para o tão falsamente meu cristal. Um dia, de repente, descobri toda a verdade sobre o misterioso e acomodado e egoísta cristal. Reparei melhor e enxerguei o que havia além-nós, o que havia além da janela que ele, o cristal, nunca me permitiu fechar. Eu descobri que ele direcionava todas as luzes, calor e amor a um outro objeto vidrado, trincado, comum. Eu descobri. E, neste momento, o cristal se partiu diante dos meus olhos e uma ventania fez com que caissem todos os cacos nas minhas mãos. Eles me machucaram. E foi com o meu próprio sangue que decidi colar cada um dos pedaços e reconstruir o cristal que era falso, eu sabia, mas que eu ainda amava.  E, ao colar as partes, percebi o quão deformado ficara aquela p-e-d-r-a de vidro, que nem absorvia mais as minhas luzes, minhas cores. Eu percebi, então, que ele nunca voltaria a ser o mesmo e que talvez ele nunca tivesse sido bonito, na alma, no corpo, na vida. Eu nunca voltaria a enxergá-lo como antes e nem um pouco de amor que ainda restava me faria voltar a ver com beleza o objeto deformado. A pedra, o encanto e a confiança se quebraram. Eu descobri que não, a pedra nunca mereceu nem reconheceu ou retribuiu os meus cuidados, minhas renúncias. Até que a pedra decidiu unir-se definitivamente àquele objeto vidrado, trincado, comum. Eles se identificaram. A minha estante ficou vazia, mas eu me tornava cada vez mais forte, um vez que todo o meu Sol, calor e amor eram direcionados a mim mesma e às pessoas que realmente me amam e me cuidam. Eu ganhei um presente. Desembrulhei com cuidado porque tinha receio de que fosse algo que se quebrasse. Era um cristal. Mas, desta vez, ele me iluminava com tantas cores e era tão forte que eu já não temia as tempestades, as ventanias. Eu podia até dormir. E hoje, quando me lembro da pedra de vidro e daquele outro objeto vidrado, trincado e comum, a sensação que me vem é de ânsia, muita ânsia. Um dia reencontrei a pedra no caminho. Reparei no quão pequena ela era, pequena de alma, de corpo, de vida. Reparei que ela não tinha mais cores, e porque não tinha o meu amor. Ela não encontrou o mesmo amor no ser vidrado, trincado e comum. E nem encontrará. Por isso, seus olhos estavam secos. O sorriso, amarelo. Fui embora. Estar longe da pedra me fez ver o quanto é bom respirar. Estou nadando de volta à superfície, depois de quase me afogar. Descobri que "há mares que te seduzem só mesmo pra te afogar". Eu sei nadar, eu descobri. Ah, tantas coisas eu descobri. E o Rio de Janeiro é realmente lindo!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Por você.

Eu vou daqui a Salvador, subo a pé o Redentor, faço de ti meu Rio de Janeiro, meu mundo inteiro, o meu amor. E eu quero mesmo é ter você, te viajar, percorrer, explorar, eu quero mesmo é te comer, sem culpa,  feito Pão de Açúcar. E para o meu delírio, eis que você existe. Para o meu deleite, aqui te tenho, e venho, sempre, respirar teus ares e ver teu mar, teu mar, e te amar, e o que essas ondas me trazem, e o que de mim levam, as ondas, o mar, as ondas que me acariciam, o corpo, os olhos, a alma. E o céu estava em festa quando o relógio bateu meia-noite, e aquele colorido se espalhou na imensidão, se espelhou no mar, se espalhou e se espelhou em mim, e em nós, você que estava longe, mas perto em energia. E aquelas águas me lavaram de tudo o que não mais servia, e ofereci a mais linda rosa à Iemanjá. A rosa tinha a minha cor, perfume e desejo, ela se misturou às águas de Copacabana e abraçou as ondas, para que pudesse ser levada a tudo aquilo que é profundo. Amanheceu em Ipanema. Em Copacabana também, e em todo o Rio de Janeiro, mas foi em Ipanema que vi e vivi o primeiro Sol de Janeiro, no Rio de Janeiro. Pintaram o céu de azul claro, pra combinar com o mar. E uma mancha cada vez mais clara, essa que chamamos Sol, ia crescendo em algum lugar desse todo azul. O céu se desenhava, eu me desenhava na areia. O Cristo já estava de braços abertos sobre a Guanabara. Era possível sentí-lo em sua infinita bondade, beleza, mistério. Era preciso chegar mais perto. Ele convidava-nos para um abraço confortador. Ele me abraçava. E, quando entrei em sua casa, ele ainda estava de costas, colocando uma melodia suave para embalar nosso encontro. Até que ficamos frente a frente um com o outro. Sua grandeza mostrou-me o quanto somos pequenos, ao mesmo tempo me fez grande também. Sua luz ofuscava tudo ao redor e, ao mesmo tempo, iluminava-nos. Seu mistério me encantou, enfim. E mesmo perto, não pude decifrá-lo. Mas pude amá-lo e sentir que, com ele, eu estava em paz.